Quando a Argentina obtém uma grande safra de soja ou altera as regras de exportação, seus efeitos costumam ser percebidos rapidamente nos portos brasileiros. Wander Aguilera Almeida, empresário que atua na intermediação de compra e venda de grãos, enfatiza que a concorrência com os vizinhos sul-americanos se tornou uma das variáveis acompanhadas por quem negocia soja, milho e farelo no Brasil.
A América do Sul é responsável por uma parcela significativa da oferta global de grãos. O Brasil ocupa a liderança no ranking de exportações de soja em grão, a Argentina tem um papel central no mercado de farelo e óleo, e o Paraguai se consolidou como um exportador relevante da oleaginosa. Os três competem por compradores em potencial, principalmente na Ásia e na Europa, oferecendo produtos com características semelhantes.
A proximidade mencionada acima tem o efeito de transformar decisões tomadas em Buenos Aires ou Assunção em fatores de preço para o produtor brasileiro. Neste artigo, você compreenderá como a concorrência regional opera, quais fatores influenciam essa competição e como ela altera a comercialização.
Um mercado regional interligado
Os calendários agrícolas do Brasil, da Argentina e do Paraguai apresentam semelhanças, o que resulta em uma oferta conjunta dos três países em períodos de tempo próximos. Quando todos os produtores obtêm bons resultados, a abundância de grãos sul-americanos pressiona os prêmios nos portos e reduz o poder de negociação dos exportadores. Wander Aguilera Almeida ressalta que, em tal cenário, pequenas discrepâncias em aspectos como preço, prazo ou logística podem determinar o destino de cada contrato.
O inverso também se aplica. Em caso de quebra de safra em um dos vizinhos, seja por seca ou excesso de chuva, há a oportunidade de expansão das vendas e melhoria das condições para os demais. Conforme observado recentemente, períodos de estiagem intensa na Argentina resultaram em uma redução significativa na produção do país.
Diante do exposto, Wander Aguilera Almeida explica que acompanhar as safras dos países vizinhos ajuda a antecipar os movimentos de preço no Brasil, já que a oferta regional influencia diretamente o interesse dos compradores internacionais pelo grão brasileiro.
Quais fatores definem a disputa entre os agentes do mercado?
A competitividade entre os países sul-americanos depende de elementos que vão além do volume produzido:
- Política de exportação: impostos e regras sobre embarques de grãos e derivados alteram o ritmo de vendas dos produtores e a oferta disponível para o mercado internacional.
- Câmbio: desvalorizações cambiais em um dos países tornam seus produtos mais baratos em dólar, aumentando a competição por compradores no exterior.
- Logística e portos: custos de frete, capacidade portuária e eficiência das hidrovias influenciam o preço final entregue ao comprador e a velocidade dos embarques.
- Industrialização: a capacidade de esmagamento de soja define quanto de cada país é exportado em grão ou como farelo e óleo, mercados nos quais a Argentina tem forte presença.

É importante ressaltar que esses fatores são dinâmicos e podem alterar a posição relativa de cada país em questão de meses. Ademais, Wander Aguilera Almeida, responsável pelo acompanhamento das safras de grãos e da evolução das cotações, indica que mudanças de política comercial nos países vizinhos costumam ser rapidamente refletidas nos prêmios pagos pela soja brasileira.
O que muda na prática para o produtor brasileiro?
Para os produtores nacionais, a concorrência regional significa que o preço da saca depende também do que acontece no mercado internacional. Uma safra excepcional na Argentina pode resultar em uma redução do prêmio pago no porto de Paranaguá, enquanto um declínio na produção pode elevar o valor da soja brasileira no mesmo período.
O farelo de soja é um exemplo claro dessa interdependência. A Argentina é um dos maiores exportadores mundiais do derivado, portanto mudanças em sua produção influenciam o valor do farelo brasileiro e, indiretamente, as margens das esmagadoras instaladas no país. Para Wander Aguilera Almeida, esse efeito ajuda a explicar variações no interesse das indústrias pelo grão em determinados momentos.
O Paraguai, por sua vez, compete em mercados regionais e utiliza hidrovias que se conectam aos portos argentinos. A ampliação da produção sul-americana reforça a necessidade do Brasil manter a competitividade logística e a qualidade do produto.
Leitura que atravessa fronteiras
A competição entre Brasil, Argentina e Paraguai evidencia que o mercado de grãos opera em escala regional antes de alcançar o mercado global. Fatores como safras, políticas e câmbio dos vizinhos se somam aos fatores internos na formação do preço pago ao produtor brasileiro. O empresário do ramo agrícola, Wander Aguilera Almeida, observa que a referida leitura ampliada tornou-se parte integrante da análise de quem compra e vende grãos.
Acompanhar as condições das lavouras e as decisões econômicas dos países vizinhos não exige a capacidade de prever o futuro, mas permite uma reação mais rápida quando o cenário regional se altera.
Em um continente que abastece uma parcela significativa do mercado global, o sucesso de cada produtor está intrinsecamente ligado às condições do mercado internacional. É imprescindível considerar essa dimensão, pois ignorá-la significaria negociar com uma parte do mapa escondida.